Quarta passada iniciei a terapia. Perguntaram-me se havia algum problema, se estava doente e com cara de indignação perguntaram também o motivo de estar fazendo aquilo. Depois a louca sou eu. E foi na quarta-feira passada também que descobri o quanto é difícil sentar em frente a um estranho que te olha no fundo dos olhos como quem quer saber a cor da alma e simplesmente desembestar a falar e falar. A dificuldade da fala veio para mim em forma de bicho papão e ao fim de frases soltas, a gente se vê e percebe o quanto é humana, terrivelmente humana e egoísta. Desconfiada, boba ou simplesmente parecida com um caminhão carregado de sentimentos que a cada curva caem na estrada fazendo buracos no asfalto. E deixa faltar.
Achei graça do meu medo de falar, logo eu, transparente com o que sinto, usando sempre de palavras para mandar recados, escrevendo como quem transforma pensamentos em palavras. Sempre expondo demais o que sinto e vivo. Falo demais e é desnecessário, guardarei frases, pouparei cenas. E agora é assim, volto na próxima quarta à terapia e desde já comecei a pensar no que falar com o ainda estranho psicólogo para mim. Se vou voltar nas outras quartas? Não sei. Muitas vezes falta a coragem e eu procuro nem saber quem realmente sou. Gosto mesmo é de ser muitas.
Abri um pouco mais meus olhos e gostaria de fazer da solidão um doce. Preciso tomar mais cuidado com minhas palavras, não suporto que as usem contra mim. Tão minhas. Vai ver uns e outros têm razão por me perguntar se há ou não algum problema comigo. E deve haver, sempre tem. Seria mesmo bom descobrir a cor da minha alma – ou as cores. Nessa vida não adianta apenas esperar, as expectativas insistem em passar por cima de qualquer espera e as coisas acontecem nem que seja por pensamento. A gente se engana e encanta, encanta e se engana.
A vida me pediu outra pausa. Respire devagar, use vírgulas, diminua o passo. Reveja essa sua intensidade e entrega, reflita o próximo destino do seu coração. Não sei se foi mesmo pausa ou tropeção, mas como diz uma amiga: a morte seria mais suave. Sambaram na minha cara e só restou o rímel borrado. Esperei demais, esperei que decidissem minha vida por mim e deixei que falassem por mim, tomaram as minhas dores e como se não existisse voz aqui dentro, perdi a minha identidade. Dá licença que agora eu quero passar, a vida é minha.


